INCÊNDIO NA BOATE KISS EM SANTA MARIA (RS) 20/01/13
Um pedido de doação de
medicamento, feito pela diretora de enfermagem do Hospital Universitário de
Santa Maria, Soeli Terezinha Guerra, 50, ajudou a esclarecer a natureza dos
sofrimentos impostos aos jovens feridos e mortos no incêndio da boate Kiss.
Hidroxocobalamina é o nome
do medicamento solicitado. Serve para combater a intoxicação causada pelo gás
cianeto, o mesmo usado nas câmaras de gás nazistas, durante a Segunda Guerra
Mundial. Era o princípio ativo do tristemente famoso Zyklon B dos campos de
extermínio. Segundo o pesquisador Anthony Wong, diretor médico do Ceatox
(Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da USP) trata-se de um dos venenos mais letais, por sua capacidade de
paralisar os mecanismos de produção de energia das células, matando-as. Pois o
cianeto apareceu junto com a fuligem e o monóxido de carbono dentro da Kiss,
como conseqüência da combustão dos materiais usados no revestimento acústico. "Não
tem cheiro nem cor e é capaz de matar em um prazo curtíssimo, de quatro a cinco
minutos", explica Wong. A detecção do cianeto é feita por análises
químicas. Mas essa suspeita já existia mesmo antes da confirmação laboratorial.
"É que o gás é subproduto da combustão de materiais como espuma de
poliuretano, usada em revestimentos baratos com finalidades acústicas",
diz Wong. Revestimentos acústicos de boa qualidade são antichamas e não inflamáveis, portanto não produzem o
cianeto.
A enfermeira Soeli disse
ontem à Folha que o Hospital Universitário de Santa Maria já recebeu doações da
Hidroxocobalamina em quantidade suficiente para o tratamento dos pacientes lá
internados (até ontem em número de 11). Mas o toxicologista da USP considera
inaceitável que o principal hospital público da cidade tenha de ter contado com
doações. "Na França, todos os serviços de pronto-socorro estão equipados
com a Hidroxocobalamina para tratar intoxicações por cianeto. "Ele explica
que, no Brasil, o medicamento (comercializado sob o nome de Rubranova) é de
difícil acesso porque o laboratório que importava o sal parou de fazê-lo, e o
país não o produz. Nas farmácias, o sal também não é vendido.
No Hospital Universitário,
três pacientes ainda necessitam de ventilação mecânica, para conseguir
respirar. E ainda há o risco de seqüelas causadas por lesões nas células
nervosas, fruto da falta de oxigênio. Esse é um resultado possível da
intoxicação por cianeto, uma vez que o veneno mata as células que entram em
contato com ele.
O mais cruel do veneno é
que, sem cheiro nem cor, muitos jovens acabaram intoxicados, achando que
estavam protegidos por máscaras improvisadas com roupas molhadas enroladas no
rosto. Se conseguiu barrar boa parte das partículas de fuligem, diz Wong, esse
expediente foi absolutamente inútil contra o cianeto.
Fonte http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1222679-fogo-em-boate-produziu-o-mesmo-gas-usado-por-nazistas-diz-medico.shtml,acessado em 30/05/2013